MÃE SOLTEIRA DE UM FILHO ADOTIVO

Dora era uma dessas adolescentes sem grandes pretensões. Sonhava apenas em se casar, morar numa casinha cor-de-rosa com flores na soleira da janela e ter muitos filhos para amar.
Namorava um jovem com o qual havia crescido e feito juras de amor eterno desde a infância. Era feliz. Faziam planos apesar da pobreza.
Filhos de lavradores expulsos do campo pela política agrária, engrossaram o êxodo rural e veio ajudar a inchar a periferia da cidade.
Trabalhava, ela de doméstica, ele de motorista.
Dezoito anos. Hora de selar um compromisso maior. Noivado. Curso de noivos. Casamento marcado. Exame pré-nupcial. Surpresa. Dora não podia ter filhos. Desespero. Lágrimas. Compromisso rompido pelo seu amado. Casamento acabado. Então para ele, ela era apenas uma parideira?
Um ano depois, casou-se com outra. Mais um ano, tornou-se pai. Não esqueceu Dora, mas agora ela só lhe servia como amante.
Dora hibernou. Trancou-se em sua dor. Nada mais lhe interessava. Comia, trabalhava e dormia. Dormia, comia e trabalhava. Trabalhava, trabalhava e dormia... Não vivia. Não progredia. Apenas sofria... E chorava. Seu alento era entregar-se como amante, de vez em quando, ao seu amor da infância.
Sentia-se no fundo. No escuro. No mais profundo dos abismos de uma alma cansada e desiludida. Encolhida e sem resistência, sem vontade de lutar, de sorrir, de cantar, de viver. Brigava com Deus:
_ você, seu desgraçado, se é que existe, e que governa o universo, por que fez isso comigo? Tanta mulher que não quer ser mãe e você lhe dá um filho. Para mim que nasci para ser mãe, você não deu. Por quê? Você é muito injusto e impiedoso. Aquela criancinha que encontraram morta dentro de uma caixa de sapatos, no corrimão da ponte, por que não a deu para mim? E a outra que encontraram morta dentro do córrego? Por que as colocou no útero de mulheres tão perversas. Por que não as colocou em meu útero? Você não sabe o que faz. Está velho e gagá, então passe a chave da sabedoria universal para alguém mais inteligente e sensível. Não fica aí usando seu poder pra fazer da vida da gente um inferno. Eu não agüento mais.
Tentativas de suicídios. Uma. Outra. E mais outra.
Na TV o primeiro Criança Esperança. Vinte e quatro horas de esperança. Esperança. Esperança. A descoberta em um clarão: filho não é o que nasce da barriga, mas o que nasce do coração.
Dia seguinte tudo tinha cor, tinha música, tinha cheiro. Tudo tinha amor. Sonho renascido. Sonho re-sonhado.
_ Vou buscar meu filho, onde quer que ele esteja.
Empregada doméstica. Faltava dinheiro. Faltava estrutura. A solução era estudar pra Ter bom emprego. E estudou... E estudou... E progrediu... E conquistou... Fez faculdade, prestou concurso, passou, virou professora, venceu! Agora tinha casa própria, tina mobília, tinha salário, tinha estrutura financeira, mas não tinha filho. Não tinha filho. Que dor! Que solidão! Noites de lágrimas!
Havia terminado para sempre aquele seu romance que durara mais de vinte anos e que tanto mal lhe fizera. Estava mais só do que nunca.
Tinha a mãe. Amava a mãe. Era amada pela mãe, pelos irmãos, mas o amor que queria dar e receber era impar. Era de mãe para filho. De filho para mãe, mas sendo ela a mãe e recebendo ela de um filho.
O tempo passa como vento e fumaça. Já com trinta e seis anos e nada. O filho não vem. Especula com um, especula com outro. Ninguém sabe onde ele está.
Dia destes, Dora rolava no tapete da sala entre lágrimas e soluços, quando bateram na porta. A conhecida:
_ Dora você quer uma criança? A mulher está dando os filhos porque não pode criá-los. Pobreza sabe?
_ Se quero? Claro que quero! Onde está? Vou lá agora!
Enxugou as lágrimas com as costas da mão.
Casa de pré-moldado, sem janela, muito escura, piso de terra batida. No portão de ripas uma criança de dois anos, pelada e suja recebeu-a com um chicote de cordão na mão. Tentou impedi-la de entrar dando-lhe chicotadas. Será que pressentia que Dora iria tirá-la da mãe?
A casa não tinha móveis. Apenas duas poltronas velhas e rasgadas. Numa, Dora sentou-se, na outra se sentou Maria. Pobre mulher! Uma coitada! Magricela, desdentada, cabelo empastado, olhos fundos de subnutrição. Vinte e cinco anos. Se fosse bem tratada, devia ser bem bonita.
Como era difícil iniciar a prosa! Dora jamais teria coragem de dar um filho seu. Se alguém lhe perguntasse se queria doar sua prole, ficaria indignada. E aquela mulher, como reagiria? Ficou olhando-a sem dizer nada. Sentia pena!
Maria pegou a criança no colo, acariciou-a e tomou a iniciativa:
_ Ocê quer ele procê?
_ Quero. Você me dá?
_ Dô. Pode levá. Ele tá passano fome. Eu não tenho como sustentá. Já dei a Tatiane. Vô dá esse e só num vô dá o Bentinho, purque já tá grande e num vai com ninguém. A menina mais veia, a Ana, já tá morano cá tia dela.
_ Depois você não vai querer de volta?
_ Não. Que eu num dó conta de criá.
Chegou a vizinha:
_ Não dá conta de criar e fica arrumando mais, né? Pode falar a verdade. Eu sei que você está grávida de novo, não está?
Maria gaguejou e riu sem jeito. Dora perguntou:
Você está grávida?
Acho que tô.
_ Você dá ele pra mim também? Vou criar os dois irmãos juntos.
_ Eu dô.
_ Então vou fazer o enxoval.
_ Qué levá o minino agora?
_ Não. Venho buscá-lo às dez da noite para levá-lo dormindo e assim evitar traumas. Quando ele acordar amanhã de manhã, tudo será mais fácil.
Dora passou a tarde se lembrando de que o garoto havia lhe rejeitado no portão. Sentiu medo. “E se ele crescer me odiando por tê-lo tirado da mãe?” Contou para uma vizinha que a aconselhou:
_ Por que você não o oferece para a Vanda? Ela quer adotar uma criança.
Feito. No mesmo dia buscaram-no. Foi uma festa. A parentela veio toda para conhecê-lo.
E Dora? Dora teria que esperar mais oito meses para Ter seu filho. Para quem esperou tanto tempo, que diferença faria? Pelo menos poderia curtir a sensação de estar grávida, ainda que o filho estivesse na barriga de outra mulher.
Dora passou a visitar Maria diariamente. Levava-lhe comida, roupas, remédios. Acariciava-lhe a barriga. Conversava com o neném. Sentia vontade de protegê-la, colocá-la no colo, carregá-la nos braços. Às vezes, penteava seus cabelos, passava-lhe perfumes e acariciava seu rosto.  Estava apaixonada. Só pensava em Maria, dia e noite. Noite e dia. Não queria mais deixá-la. Queria colocá-la no canto de sua cama e dormir abraçadinha com ela. Qual o problema? Afinal era a mãe de seu filho. A mãe de seu filho? E Dora, o que era então? O pai? Era assim que se sentia. Tinha que dar um jeito naquele sentimento estranho que vinha de suas entranhas. Afastou-se de Maria. Não foi mais vê-la por quatro meses. Mandava dinheiro. Mandava alimentos. Mas não tinha nenhuma notícia. Dia desses resolveu visitá-la.
_ Como? Maria não está mais morando com o senhor?
O tio dela responde:
_Não. Quando a senhora disse que ir pará de vim aqui, ela se juntô cupai do fio dela dinovo e foi simbora pru Prata.
_ E o senhor tem tido notícias dela?
_ Tenho, mais a sinhora num vai gostá de sabê.
_ O que foi? Ela não vai mais me dar a criança?
_ Pió du que isso. A úrtima notícia que nóis teve dela, é que o Paulo, marido dela, matô ela a facada. Diz que deu umas deis facada nela.
Dora estremeceu. Saiu andando de fasto. Não queria acreditar no que ouvira. Foi para a casa da mãe. Abraçou-a soluçando:
_ Mãe, mataram meu filho mãe!  Mataram meu filho! Ele está morto! Morto!
Uma semana sem dormir. Uma semana chorando de dor. Não comia. Trabalhava automaticamente. Os olhos perderam o brilho. Os lábios perderam o sorriso.
O telefone tocou. Do outro lado alguém dizia que Maria estava chamando. Dora deixou tudo e voou para a casa da avó de Maria, onde ela estava. Foi ao quarto. Ela estava lá, deitada em um colchão imundo jogado no chão. Disse com melancolia:
_ Eu abortei seu fio. Olha ele aí.
Dora olhou e viu ao lado dela um útero. Dentro dele algo se movia. Gritou:
_ Ele está vivo! Meu filho está vivo! Preciso salvá-lo!
Correu com o útero nos braços até o pronto-socorro. Entrou sem pedir licença:
_Salvem meu filho, por favor!
Tiraram-na da sala.. Minutos depois a enfermeira retornou e entregou-lhe a criança sã e salva. Já em sua casa, Dora mostrou a criança para o espelho e disse comovida:
_ Sabe quem é aquele garotinho? É você. E o seu nome é Matheus. Matheus significa presente de Deus. Você é o filho que Deus me deu de presente.
A imagem do espelho foi desaparecendo até sumir. Dora acordou daquele sonho profético, com o coração leve pela certeza de que Deus lhe daria um filho de presente.
Uma semana depois, o telefone tocou. Sua irmã avisando que Maria não havia morrido. Ela estava viva e havia mandado chamá-la. Dora foi vê-la duvidando se aquilo era realidade ou outro sonho. Encontrou-a deitada naquele colchão imundo jogado no chão.
_ Eu tô perdendo o neném _ Disse ela com voz fraca. _ meu marido me surrô. Me deu chute na barriga. Me bateu com o facão. Passei três dias e três noites no mato escondida pra ele num me matá. Andei três léguas a pé pra pegá carona com o leiteiro para vim pra cá. Me ajuda sinão eu morro.
Dora levou-a para o pronto-socorro, depois para o hospital. Ameaça de aborto. Quinze dias internada. Levou-lhe comida, roupas, xampu, sabonete, lavandas, carinho. Era o marido apaixonado cuidando de sua amada.
Maria tomou banho. Lavou-se, se penteou, se pintou. Ficou bonita. Não tinha mais as crostas de sujeira, formadas pela fumaça e poeira da carvoeira onde havia passado os últimos meses tomando banho só nos córregos.
Saiu do hospital. Quinze dias depois retornou para dar a luz. Dora foi avisada. Não acreditava. Até aquele momento, não acreditava que aquele momento chegaria. Que a criança seria sua. Achava que quando ela nascesse Maria desistiria de doá-la. Por isso não comprou todo o enxoval para não correr o risco de se decepcionar depois.
Correria. Compras de última hora. O salário estava cortado por causa da greve. Arrumou dinheiro emprestado com a mãe. Virou-se.
Atravessou o corredor do hospital com as pernas trêmulas. O coração estava aos pulos. Finalmente iria ver o filho tão sonhado, tão desejado! Atrás do vidro do berçário estava ele. “Que lindo! Tem um furinho no queixo”! Lágrima quente e grossa, da mais pura e intensa emoção molhou o seu rosto. Não pode pegá-la nos braços. A direção do hospital não poderia saber da adoçaõ. Dora era solteira.
Dois dias depois, Maria saiu do hospital. Dora fotografou-a com a criança nos braços. Queria guardar uma foto para mostrar ao filho quando crescesse. Colocou Maria em um taxi e mandou que a levasse para casa da sua avó. Pegou a criança nos braços, abraçou-a beijou-a e lhe disse emocionada:
_ Você agora é meu filho. Eu vou te amar muito e para sempre.
Dora foi embora levando seu filho. Passou na igreja para abençoá-lo e agradecer a Deus. Depois seguiu para a casa de sua mãe, para onde havia se mudado, havia um mês. Havia lá uma legião de parentes e vizinhos querendo conhecer a criança. Foi uma festa!
Finalmente a sós, Dora preparou-lhe o banho, tirou-lhe as vestes, colocou-o na frente do espelho e disse:
_ Tá vendo aquele garotinho ali? É você. Seu nome é Matheus, que significa presente de Deus. Você é o presente que Deus me mandou para me fazer o ser mais feliz do mundo. Obrigada Deus e me perdoa por ter sido tão herege em meus momentos de dor.
Colocou Matheus na água, olhou-o com ternura e começou a rir... Rir...Gargalhar...Gargalhar. Lágrimas escorrendo de tanto rir. Nunca mais parou de rir. Finalmente se sentia mãe. Mãe solteira de um filho adotivo. 
 
  


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